AS MÚLTIPLAS FACES DO TANTRA

 

“O Tantra possui muitas faces e muitos ramos.
Alguns são bastante primitivos enquanto outros podem ser alinhados aos mais sublimes ensinamentos sobre iluminação do mundo. 


Entretanto, todas as abordagens do Tantra possuem ao menos três pontos em comum.
Primeiramente o tantra não faz concessões ao abraçar a realidade, tanto em toda sua beleza como em todo seu horror. Um dos pontos centrais do Tantra é o princípio da não rejeição.
No Tantra nada é considerado como estando fora da tapeçaria divina. Shakti, o aspecto imanente do divino torna-se tudo o que existe. 


Logo, tudo o que existe é digno de ser adorado como uma das formas da Deusa ou Shakti. Isso não significa que o Tantra ignora a moral ou os princípios éticos. 


Textos fundamentais como o Kularnava Tantra preconizam que um forte embasamento ético é crucial para a pratica tântrica. Entretanto o Tantra insiste que todos os corpos, todos os mundos e todas as ideias são feitas da Shakti e consequentemente divinas em sua essência.


A fim de experimentar isto como um fato, como uma verdade no interior do seu próprio corpo e mente o Tantra é definido como o conhecimento que libera de todo o sofrimento. Tan significa expandir enquanto tra significa liberar. Logo, o Tantra refere-se a si mesmo como uma expansão do conhecimento e da prática capaz de nos libertar do sofrimento. Outro significado da palavra Tantra é trama, tecido, uma vez que o Tantra vê o mundo como uma tapeçaria de energias – cada uma dessas tramas como aspectos da energia divina e, consequentemente, todos eles sagrados. O mundo físico é considerado tão sagrado e numinoso quanto o mundo espiritual. Toda a ética tântrica é baseada nesse reconhecimento.


Segundo, e como um corolário do insight inicial, é o reconhecimento de que os prazeres físicos e emocionais podem ser portas de entrada para o divino. 


Os tântricos acreditam que o prazer pode ser sagrado.
O sabor do alimento, o momento do toque sensual, a sensação transbordante de felicidade ao ouvir uma bela música, a bem aventurança da experiência de perder-se de si mesmo num movimento dançante ou ao ter uma bela visão que encha nossos olhos – qualquer um desses momentos pode nos abrir para o êxtase divino existente no coração da vida.


Este é o aspecto do Tantra que o torna uma poderosa prática para os ocidentais contemporâneos que procuram um caminho que integre a espiritualidade com a vida no mundo visível.
No ocidente, o Tantra é frequentemente associado com práticas sexuais secretas (hoje em dia não tão secretas assim…).
Porém, essa é apenas uma pequeníssima parte do sistema tântrico. 


Muito mais radical e significativa é a visão tântrica de que a felicidade e a presença (do divino) podem ser desveladas de súbito, no jogo das forças destrutivas, na tristeza ou na doença – precisamente porque não há lugar em que a Shakti não esteja presente.


Terceiro, a visão tântrica vê a Shakti universal, o divino poder feminino – a Deusa – como a fonte de todo poder. Essa é uma ideia revolucionária e quando a absorvemos, ela transforma nossa relação com nossa própria fonte de energia para sempre.
Então, considere o seguinte.
O FEMININO É PODER
O verdadeiro poder surge de uma fonte interior feminina – da Shakti. Isto é verdadeiro enquanto a força aparece no cosmos (como no big-bang e na teoria da evolução) ou num ser vivente – convertido em nossa capacidade de pensar, sentir e agir.
No ocidente estamos acostumados a associar poder com masculinidade e pensar no aspecto feminino como puramente passivo, nutriz e receptivo. 


O Tantra nos diz que o caminho é outro.


A partir da perspectiva tântrica, o princípio masculino – Shiva – é a fonte da consciência, sabedoria.
Mas, para ser capaz de de agir, mexer-se, devemos buscar a energia do princípio feminino. Na vida real isto é exatamente o que muitos homens fazem ao projetarem para fora sua energia criativa, numa musa, numa esposa dedicada ou numa assistente, à qual então derrama sua energia em seu interior.


Em compensação o feminino é aterrado e focado pela qualidade masculina da consciência. 


A consciência permite ao aspecto feminino ver a si mesmo e dar contenção e direcionamento à sua energia. Seja cósmica ou individualmente, qualquer projeto genuinamente criativo surge da comunhão da consciência e do poder.


Para uma total energização criativa, essas polaridades masculina e feminina precisam vir à tona juntas. 


Necessitamos da estabilidade do foco linear – a qualidade masculina – emergindo com a qualidade feminina da energia, com seu convite à inspiração, eros e vida.
Embora nos dias atuais, já saibamos q

ue essas qualidades estão presentes em ambos os gêneros, homem e mulher, continuamos projetando essas polaridades no gênero oposto. Por exemplo, no casamento tradicional, onde o homem supõe prover direção e foco enquanto a mulher supõe emprestar sua energia criativa e sentimentos aos seus projetos. Esse padrão de gênero prevalece em muitos relacionamentos, incluindo os casais de mesmo sexo, onde um parceiro irá frequentemente simular o papel masculino enquanto a outra parte simulará o papel feminino.


Quando trazemos uma verdadeira perspectiva tântrica à nossa vida diária, aprendemos como promover o matrimônio entre o Deus e a Deusa no interior de cada indivíduo. Num relacionamento, isso significa que quando duas pessoas se encontram não sentem a necessidade de projetar um no outro sua força vital (Shakti) ou sua consciência (Shiva).


Em vez disso eles podem chegar juntos a um espaço onde masculino e feminino, consciência e energia encontram-se equalitariamente encarnados tanto no homem quanto na mulher. Isto dá espaço a ambos para um relacionamento mais profundo e um maior crescimento pessoal pleno em cada um dos indivíduos.
Diz-se que quando os sábios tântricos falam sobre o divino masculino e feminino referem-se aos princípios eternos fundamentais situados além do gênero – embora possam ser expressados através do gênero. O masculino, Shiva é conhecido como sendo a qualidade transcendente da deidade – a luz do conhecimento além de todas as formas. O feminino, Shakti, é o aspecto imanente do divino. Ela é o poder que se torna o mundo.

A DANÇA DE KALI


Falando em termos cósmicos, dizem os Tantras que sem o dinamismo da Shakti – o feminino – o masculino, Shiva é inerte.
Ou por outro lado, sem a consciência de Shiva, Shakti é incontrolavelmente selvagem.


Uma imagem dramática da iconografia tântrica transmite esse ponto de vista essencial do Tantra sobre a realidade.
A imagem mostra a deusa Kali – vestida apenas com um avental feito de mãos e um colar de crânios – dançando sobre o corpo prostrado de Shiva, seu eterno consorte. A posição cadavérica de Shiva representa o fato de que a pura consciência é a base estática do ser, comparável com a consciência descoberta pelo meditador como a testemunha imutável de seu próprio mundo mental.


A dança selvagem de Kali expressa o dinamismo do processo cósmico – intenso, infinito, dramático, surgindo de e suportado pela quietude aterrada de Shiva, ele mesmo expressando a evolução dos infinitos universos. 


No mundo exterior ela é a força evolucionária, a verdade erótica no coração da vida. Ela é a direção criativa intrínseca que abasteceu o big bang e continua a desdobrar-se em estrelas, galáxias, planetas, formas de vida, espécies e também como sociedades humanas, culturas e consciências individuais. No fundo do nosso mundo interior, a Shakti brinca com nossos pensamentos emoções ideias, inspirações, assim como nossas ideias sobre quem somos. Na meditação ela se manifesta como nossas visões, nossas sensações de bem-aventurança, nossos insights, os bloqueios interiores que surgem e a amplidão que os dissolve. No processo de transformação ela toma a forma de de uma urgência passional que nos inspira a escalar um degrau além dos limites aparentes e faz expandir nossa consciência.


Shiva permanece por fora e além de tudo isso, como o conhecedor, a testemunha-consciência que ao mesmo tempo observa e contém a dança. Uma vez eu tive uma visão desta dança como um caleidoscópico vórtex de luz extática – maravilhoso em sua radiância, grandioso em sua felicidade e terrivelmente infinito. Isso foi o que mais profundamente me chocou, após o deslumbramento inicial: o fato desta dança ser eterna. Não há literalmente descanso da dança cósmica da Shakti, exceto fundamentando o self no Ser, em Shiva – a pura consciência-testemunha.


A cada nível de consciência o masculino e o feminino, Shiva e Shakti, firmeza e dinamismo, consciência e felicidade, estabilidade e transformação, ser e vir a ser, completam e complementam-se um ao outro.


Gostaria de repetir: sem o solo espaçoso que é a luz da consciência, firme e imóvel, nada poderia existir. E sem a força dinâmica da existência, nada poderia crescer, evoluir ou transformar-se. Shiva e Shakti, ser e existência, são como dois lados de uma moeda em rotação, como a água e sua umidade ou o fogo e seu calor. Eles estão além do conceito de gênero, mesmo quando evoluem para a forma física, suas qualidades permanecem em nós como aspectos da consciência e também como as qualidades relacionadas com cada gênero, singulares da alma humana.

 



Isso acontece porque no universo Tântrico tudo o que existe provém dessa união original, o abraço de Shiva e Shakti. Da mesma forma que um embrião é constituído da combinação genética de seus pais, o universo é constituído de Shiva e Shakti.”


Sally Kempton em “Awakening Shakti” – tradução livre de Ricardo Coelho.

About Selma Flavio

Selma Flávio – Terapeuta Sistêmica e Vibracional – Partner Internacional Sistema Floral de Bach e outros sistemas florais, EFT (Emotional Freedom Techniques), Taróloga, Constelação Familiar Sistêmica. Formação em Pedagogia, e Educação Transdisciplinar.

Proporciona atendimentos terapêuticos, individuais e grupo, cursos e workshops, em Constelação Familiar e Técnicas Transpessoais.

Maiores informações e agendamentos pelo whatsapp
11-97387.3144 – CTN – SP nº. 0879

www.selmaflavio.com.br
Facebook www.facebook.com/TerapiaDesenvolvimentoPessoal
selmaflavio@gmail.com

Deixe uma resposta